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domingo, 1 de abril de 2012

Teimosia da Imaginação – dez artistas brasileiros

Uma bela mostra, resultado da parceria do Instituto Tomie Ohtake com o Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, que nos apresenta obras de artistas que praticam a arte primitiva ou popular com citações da arte "naiif".

Este tipo de representação artística nunca foi minha escola favorita, mas esta mostra conseguiu reunir artistas e peças de rara beleza, agradáveis de se ver, que relaxaram essa minha indisposição.

Com uma produção e montagens invejáveis, este evento deveria criar em alguns curadores ou produtores de exposições ou mostras o desejo de fazer um estágio no Instituto Tomie Ohtake, pois assim aprenderiam como se deve apresentar ao público obras de arte.

Que nem jiló - Luiz Gonzaga



Abaixo das imagens, o "press-release", fornecidos pela assessoria de imprensa do Instituto Tomie Ohtake.

Wilson Pimenta

Este sim é um artista inserido totalmente na escola "naiif", apesar das cores mais discretas. Mostra cenas do cotidiano da vida no campos e da vida selvagem.
Este quadro abaixo, "Dona dos Peixes", é de uma beleza inesperada em obras desta vertente.
Surpreendentemente, o artista apresenta uma pequena série de arte erótica, retratando um bacanal, em que nada nos ofende.


Antônio da Dedé

Com tocos de mato e restos de madeira realiza esculturas às quais enche de vida com suas cores.



Isabel Mendes da Cunha


Uma fada da argila, que com suas mãos e depois suas cores faz do barro um ser vivo.


Cicero Alves dos Santos ( Véio)


Outro que utiliza restos de toco, estes sem nenhuma montagem ou encaixe de outras peças, transforma mato seco em seres da imaginação.
Tem também pequenas peças esculpidas, com detalhes de grande precisão em seus cortes.
A foto abaixo ilustra o folder da mostra.


Aurélio do Santos

Diferente dos pintores "naiif", sua cores são sombrias e não representam pessoas, sempre mostrando cenários e paisagens solitárias ou arabescos.


Getúlio Damado


Esculturas feitas com lixo tecnológico, embalagens vazias, válvulas hidráulicas, tampas de garrafas entre outros.


Francisco Graciano

Suas esculturas partindo de cortes em troncos, acrescidas de cor, constroem figuras do folclore.



Jadir João Egídio 

Com entalhes precisos em grandes toras, constrói totens que contam estórias.


José Bezerra

Também trabalha com tocos e troncos entalhados, onde cria figuras transportadas de seu imaginário.


Manoel Galdino de Freitas

Utilizando a milenar técnica de moldar a argila, cria além das figuras do cangaço, seres e cenas imaginárias, carregadas de um certo surrealismo. Há uma provocante representação de Lampião, quase que messiânica em sua beleza.


Teimosia da Imaginação – dez artistas brasileiros

Exposição, livro e documentário trazem a obra e o pensamento de cada um destes mestres da arte de raiz
Abertura da exposição, lançamento dos documentários e do livro:
Dia 28 de março, às 20h, no Instituto Tomie Ohtake
Uma iniciativa do *Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, este projeto, apresentado em três linguagens – documentário, exposição e livro –, reúne 10 nomes de uma cena da arte brasileira conhecida como “popular”, mas cuja nomenclatura ainda se discute para melhor representar uma produção que brota da cultura de raiz. Daí o interesse em investigar a criação poética deste fazer artístico pela potência do imaginário de seus autores.
Antonio de Dedé, Aurelino, Francisco Graciano, Getúlio Damado, Izabel Mendes, Jadir João Egídio, José Bezerra, Manoel Galdino, Nilson Pimenta e Véio são os protagonistas de “Teimosia da Imaginação – dez artistas brasileiros”. Registrar universos singularmente iluminados pela expressão dos próprios artistas oriundos de várias regiões brasileiras pautou a seleção dos nomes que compõem o projeto. Por isso, entre os dez, nove estão em atividade, somente Manoel Galdino teve seus depoimentos captados antes de sua morte.
A exposição, em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, e o livro, coedição com a Editora WMF Martins Fontes, são duas grandes realizações do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, entidade criada para preservar e promover a produção artística de origem popular brasileira. As obras tanto do livro quanto da mostra pertencem a acervos de importantes museus, como Pinacoteca do Estado, Museu Afro Brasil, Memorial da América Latina, Museu do Folclore RJ, Museu do Pontal RJ e Fundação Cartier (Paris), além de destacadas coleções particulares, como a de Gilberto Chateaubriand.
Com curadoria de Germana Monte-Mór e curadoria-adjunta do crítico Rodrigo Naves, a mostra traz cerca de dez trabalhos referenciais de cada um destes mestres, além de exibir os documentários. Por sua vez, o livro, com prefácio também de Rodrigo Naves, texto e entrevistas dos artistas editadas pela historiadora Maria Lucia Montes, é ilustrado com fotos que mostram as obras e os autores em seus respectivos locais de vida e trabalho.
Os documentários produzidos pela Pólo de Imagem, em parceria com a TAL e a TV Cultura, em 10 episódios, farão também parte da programação da emissora brasileira. Com direção executiva de Malu Viana Batista, os filmes revelam o processo, a obra e a personalidade de cada um dos artistas, constituindo-se de raro registro desta arte que muito tem a ser investigada. Em todos os episódios (26 minutos, livre) a trilha sonora é de Lívio Tratenberg, contudo a direção tem assinaturas de diferentes cineastas: Claudio Assis - Francisco Graciano, Manoel Galdino e Getúlio Damado; Cecília Araújo - Nilson Pimenta e Antônio de Dedé; Hilton Lacerda - José Bezerra e Izabel Mendes; Rodrigo Campos - Jadir João Egídio e Aurelino; e Adelina Pontual - Veio.
Segundo Naves, na obra destes dez artistas, cidade e campo, ensinamento e experiência, loucura e relação serena com o meio, procedimentos modernos e técnicas tradicionais deixam de se pautar por parâmetros claros e excludentes, embora também se mantenham. “No mais das vezes, porém, eles se encavalam, se sobrepõem de maneira mais ou menos violenta, dando origem a trabalhos de arte que guardam a lembrança dessas relações complicadas e imperfeitas”, completa.
Já Maria Lucia Montes aponta algumas pistas que possibilitam esboçar o perfil do universo deste elenco. “No artista, a imaginação e o imaginário que o sustenta se dão a ver na obra criada, mas se mostram também na sua fala que revela o lusco-fusco do devaneio e do sonho que o conduzem à criação, na forma em que sua mão molda o barro, distribui as cores das tintas ou entalha a madeira, na atenção do seu olhar, no esforço de concentração ao aplicar o instrumento de trabalho à matéria de sua criação, na exuberância ou contenção dos seus gestos, na música com que os faz acompanhar, traduzindo às vezes em forma de canção a evocação nostálgica de uma memória ou a alegria de um corpo exultante que canta e dança o sentido da invenção do mundo e de si mesmo...”,
EXPOSIÇÃO
Teimosia da Imaginação – dez artistas brasileiros
Curadoria: Germana Monte-Mór e Rodrigo Naves
Visitação: de 29 de março a 13 de maio 2012
De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca
Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima 201, entrada pela Coropés 88 – Pinheiros - SP
Fone: 11.2245-1900
Informações à Imprensa
Marcy Junqueira e Martim Pelisson/ Instituto Tomie Ohtake
Tel: 11.3032-1599
LIVRO
Título: Teimosia da imaginação – dez artistas brasileiros (edição bilíngue)
Autor: Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro
Editora WMF Martins Fontes
Prefácio: Rodrigo Naves
Textos: Maria Lucia Montes
Fotos: Germana Monte-Mór
R$ 120,00 Nº de páginas: 320
ISBN: 978-85-7827-550-5
Informações à Imprensa Felipe Teixeira / Editora WMF Martins Fontes
Tel.: 11. 3293.8182 / 11 9120.9167 e-mail: felipe@wmfmartinsfontes.com.br
PROGRAMAÇÃO TV CULTURA
De 04/04 a 02/05, às quartas-feiras, às 23h30, e reprise aos domingos, às 15h.
estreia
reprise
episódios
1
04/04
08/04
1 - JOSÉ BEZERRA – Coisas Que Esses Olhos Me Mostram
2 - VÉIO – Sertão Esculpido na Madeira
2
11/04
15/04
3 - MANOEL GALDINO – Tudo é Folclore
4 - FRANCISCO GRACIANO – Eu Olho e Eu Vejo
3
18/04
22/04
5 - AURELINO - Sombra Viva
6 - IZABEL MENDES – Mãos que Moldam um Mundo
4
25/04
29/04
7 - ANTONIO DE DEDÉ – Dias Transparentes
8 - NILSON PIMENTA – A Caminho de Tudo
5
02/05
06/05
9 - JADIR JOÃO EGÍDIO – Caso Com a Madeira
10 - GETÚLIO DAMADO – A Arte é Reciclagem
Informações à Imprensa
Guilherme Mariano /TV Cultura
Tel: 11. 2182-3457 / e-mail: guilhermemariano@tvcultura.com.br
Sobre os Artistas:
Antonio de Dedé (Antonio Alves dos Santos)
1953, Lagoa da Canoa - AL
Filho mais velho de cinco irmãos, começou a acompanhar o pai no trabalho de carpintaria e roçado das fazendas da região aos oito anos de idade. Dedé atribui a sua arte a um “dom”, surgido a partir do olhar e vontade de recriar, da sua maneira, o trabalho do pai. Suas esculturas, conforme Naves “reproduzem a relação amorosa entre homens e animais, o lirismo entre todos os seres deste mundo”.
Aurelino (Aurelino dos Santos)
1942, Salvador, BA
Aurelino dos Santos trabalha com pintura. Suas paisagens surpreendem pela geometria singular de planos, formas e cores. Trabalha em sua casa nos arredores de Ondina, em Salvador. Em suas obras, a original geometria parece buscar ordenação no caos da vida da cidade grande. Caminha pelas ruas e recolhe materiais que inspiram a sua obra.
Francisco Graciano
1965, Juazeiro do Norte, CE
Brejo Santo, cidadezinha perto de Juazeiro do Norte, vive Francisco Graciano, também conhecido como Mozinho dos Bonecos, filho do artista Manuel Graciano. É na tranquilidade de um sítio onde mora, que ele transforma as formas dos bichos em esculturas. Hoje vive de sua arte, mas antes trabalhou na roça e em pedreira. Manuel Graciano consagrou-se escultor e Francisco, embora tenha iniciado pelo caminho do pai logo encontrou uma linguagem própria, autoral. Além de esculpir na madeira leva para a tela a mesma temática dos animais e do sertão.
Getúlio Damado
1955, Espera Feliz – MG
O mineiro chegou ao Rio no fim de 1970, aos 15 anos. Com o nome de sua cidade natal batizou o pedaço de calçada em Santa Teresa, onde ergueu seu mundo artístico, que transforma sucata em arte. No bairro carioca, Getúlio construiu sua oficina de trabalho, o conhecido bonde amarelo, que funciona como ateliê, loja e depósito. Além dos bondes em miniatura que viraram marca registrada, produz bonecos, caminhões, pássaros, cavalos, pinturas e poesias.
Dona Izabel (Izabel Mendes da Cunha)
1924, Itinga, Vale do Jequitinhonha – MG
Suas consagradas bonecas de barro, criadas desde 1978, alcançaram as exposições pelo Brasil desde a década de 80. Filha de paneleira e de pai lavrador, Dona Izabel confere fisionomias expressiva às mulheres caboclas, brancas ou negras que esculpe. Conhecida por compartilhar seu conhecimento, sua “escola” já foi assimilada por muitos, particularmente pelas filhas, Maria Madalena e Glória, e pela neta, Andréa Pereira de Andrade (1981).
Jadir João Egídio
1933, Divinópolis – MG
A grande repercussão da escultura de G.T.O., na década de 1960, estimulou outros artistas de Divinópolis, como é o caso de Jadir. Da meninice na área rural, transferiu-se em 1960 para a cidade, onde trabalhou como carroceiro até 1977. Desde então, exerce o ofício de escultor, especialmente criando, a partir da madeira, esculturas de santos, figuras da cultura regional e de pessoas próximas. Com autonomia formal, confere uma religiosidade própria em suas obras.
José Bezerra
1952, Buique – PE
Sua casa no Vale do Catimbau, no sertão de Pernambuco, é rodeada por um ateliê ao ar livre, com inúmeros totens e esculturas de madeira, encantando os viajantes que passam por lá. Bezerra interfere pouquíssimo em sua matéria-prima, pois segundo ele, nela já está revelada a imagem que deverá se tornar. Com a intervenção de um facão, grosa, formão e serrote em árvores caídas, pedaços de troncos e raízes, ele retrata as mais diversas figuras, desde cabeças de gente, carros de boi, animais, tudo que faz parte do seu universo.

Manoel Galdino de Freitas
1924, São Caetano – PE / 1996, Alto do Moura – PE
Em 1940, Galdino muda-se para Caruaru (PE), onde passa a trabalhar em olaria, fazendo telhas e tijolos. Nas horas vagas, se distrai modelando figuras de barro, entre elas a de Judas, para as brincadeiras de malhação da Semana Santa. Em 1974 volta para Alto do Moura onde se torna um dos mais fecundos ceramistas. Seu repertório é composto por monstros e personagens como Lampião-Sereia e São Francisco Cangaceiro. Manuel Galdino morre no Alto do Moura, em 1996.
Nilson Pimenta
1956, Caravelas – BA
O artista passa a infância em Mato Grosso e percorre várias localidades trabalhando como peão, lavrador e cortador de cana, antes de ir morar em Cuiabá, em 1978. Começa a desenhar com lápis de cor e, a partir de 1980 passa a pintar. A pintura levou-o a trabalhar, depois de guarda-vigilante, como supervisor do Ateliê Livre da Universidade Federal de Mato Grosso. Os temas que representa podem ir desde um casamento no Pantanal até os crimes em série do “motoboy” paulistano. Participou da Bienal Naïfs do Brasil (1988 e 2000) e da “Mostra do Redescobrimento” Brasil 500 (2000).
Véio (Cícero Alves dos Santos)
1948, Nossa Senhora da Glória – SE
De família de lavradores, Véio começou a esculpir em cera de abelha e logo depois em madeira, até hoje a sua matéria fundamental de expressão. Com um sentido de volume muito peculiar, ele equilibra em uma única escultura vários elementos. Na rodovia Engenheiro Jorge Neto, que passa em frente ao seu sítio, figuras em tamanho natural contam histórias do dia-a-dia no campo.
*Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro
A entidade criada em 2006 é resultado da união de um conjunto de pessoas interessadas em preservar, valorizar e difundir o conhecimento do imaginário do povo brasileiro por meio de programas de pesquisa, educação e divulgação. O Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro tem como proposta investigar a dimensão estética das diferentes expressões do conhecimento popular, tendo como base a narrativa, os processos e a poética da criação. Para isso busca promover, realizar, patrocinar e incentivar exposições, cursos, seminários, palestras, conferências e pesquisas artísticas e culturais, edição e difusão de textos, monografias, livros, revistas em meios diversos, e estabelecer intercâmbios artísticos e culturais com entidades congêneres do país e estrangeiras.
TEIMOSIA DA IMAGINAÇÃO – DEZ ARTISTAS BRASILEIROS
Lançamento livro, documentários e abertura da exposição
28 de março de 2012, às 20h
Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima 201, entrada pela Coropés 88 – Pinheiros - SP
Fone: 11.2245-1900
Exposição de terça a domingo, das 11h às 20h, até 13 de maio de 2012. Entrada franca.
Informações à Imprensa
Marcy Junqueira e Martim Pelisson
Tel: 11.3032-1599






segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Forever - Dudu Santos

Neste sábado foi aberta a exposição Dudu Santos na Galeria Jaqueline Martins com obras de três fases do artista.

Ainda não conhecia nada sobre seus trabalhos, e qual não foi minha surpresa ao deparar com belíssimas telas, que não constavam do release da assessoria de imprensa.

Os quadros apresentam uma densidade ora instigante, ora inquietante, tomando nossa atenção fazendo-nos apreciá-las com vagar e atenção.

Uma coisa que me chamou a atenção foi o capricho e o entusiamo com que Jaqueline Martins desenvolve seu trabalho, pois além da magnífica instalação da mostra, nos brindou com um catálogo muito bem feito, para ser guardado e sempre consultado. A satisfação com que recebe seus convidados, mesmo aqueles que não são compradores, demonstra que mais do que uma comerciante de artes, é uma arte-educadora, uma formadora de opiniões.

Abaixo das imagens, texto de Mario Gioia de apresentação da exposição e o "press-release", fornecidos pela direção da galeria.





Tudo igual - Lulu Santos









Anárquica persistência

É uma das cenas inaugurais de Kippur - O Dia do Perdão (2000). Os amantes se envolvem com intensidade em meio ao corrimento de tintas. O entrelaçamento dos corpos pulsando na matéria das cores serve de contraponto à rigidez das composições geométricas das bandeiras, símbolos de lados opostos em um campo de batalha, o palco principal vivenciado pelos protagonistas do título. A hábil construção do diretor israelense Amos Gitai no longa, de forte tom documental e crítico, confere, assim, ao componente pictórico algo que não pode ser desligado da vida, da liberdade.

E o caráter livre norteia a carreira de Dudu Santos, na ativa desde 1961. Nos 50 anos de trajetória, talvez um dos momentos mais midiáticos se constituiu quando unia performance e pintura,em parcerias com modelos e atrizes. Tais eventos chamavam um numeroso público para a casa de dimensões amplas no Morumbi, em São Paulo, na qual um mezanino atestava a popularidade dos eventos, já que ficava repleto de observadores. A união entre o gesto do artista e os movimentos da bailarina nos faz remeter às provocativas Antropometrias da Época Azul (1960), ações do visionário Yves Klein (1928-1962) em consonância com suas modelos. A proposta de mínimas restrições de Dudu, em sintonia com os anos pós-ditadura militar, já era compreendida, por exemplo, na exposição Pinxit (1993), realizada nas galerias Dan e Mônica Filgueiras. Para a mostra, Lygia Fagundes Telles escreve: “Na ruptura com o conformismo das regras cristalizadoras, ele exige o movimento na sua instigante sucessão de imagens que se desencadeiam como num sonho. Ou delírio, mas num delírio que é tumulto e, ao mesmo tempo, ordem (...)”1.

Para a individual na galeria Jaqueline Martins, o artista ainda tem no gesto um forte procedimento de sua poética, mas a paleta parece mais escura, não solar. Aquele prazer do fazer artístico, tão em voga nos anos 80, nos quais Dudu também tinha correspondências com obras de nomes hoje mais lembrados _Jorge Guinle pode ser citado nesse grupo_ e menos incensados atulamente, mas com representatividade em coleções institucionais importantes _Adir Sodré, Ana Horta, Cláudio Fonseca, Felipe Andery, por exemplo_, persiste, mas parece ser resultante de um olhar mais crítico. Nesse sentido, as esculturas negras exibidas na mostra formam um conjunto também pouco otimista. Talvez seja o lado mais expressionista do artista impondo-se. A lembrar, Dudu foi assistente de Marcello Grassmann, outro nome de caminho à margem na arte brasileira e um dos eixos do expressionismo nacional.

Ao mesmo tempo, em produções paralelas, a não reverência do artista continua a chamar a atenção. Paradigmática nesse sentido é a série em que Dudu pinta o próprio caderno de assinaturas de sua exposição no Clube dos Artistas e Amigos da Arte, em 1961. Pelas páginas preenchidas por nomes e sobrenomes que hoje intitulam logradouros em pontos variados de São Paulo, pinceladas preenchem anteriores vazios, anarquizando o que tinha se sedimentado como um relicário de elite.

“Não existem mais fronteiras ou estilos. Tudo vale, nada vale. A história da arte foi virada de cabeça para baixo, e nesse sentido os ícones invertidos de Baselitz, Salomé, Kosuth valem como um símbolo da nova pintura. Em vôo cego, morcegante, os artistas penetram em todos os desvãos ou escaninhos da história da arte, do realismo e do simbolismo”2, escreve Frederico Morais, ao analisar a produção do começo da década de 80.

“Foi uma delícia”3, diz José Roberto Aguilar, importante artista dos interstícios entre pintura, performance e videoarte. Ele diz isso ao comparar os politizados anos 70 e sua produção na década seguinte, na importante mostra Arte como Registro, Registro como Arte: Performances na Pinacoteca de São Paulo, com apurada curadoria de Ana Paula Nascimento e Gabriel Moore Forell Bevilacqua. Tal exposição tem grande interesse por atestar que um segmento da produção da época, atualmente pouco visto e veiculado, realizado por artistas de trabalhos mais efêmeros e de difícil classificação começa a gerar estudos mais detidos do estabilishment institucional. Mesmo se atendo a obras executadas no museu paulistano, não seria absurdo construir pontes entre a produção de finas amarras de Dudu e muitos dos registros presentes na coletiva, como o de Genilson Soares, hoje também artista do elenco da Jaqueline Martins.

“Enfim, fundamentada nas ambiguidades do homem e nas tensões internas às obras, a atual produção de Dudu Santos indica a descoberta de um novo rumo e expressa o controle intelectual e o despudor anarquista de um artista que teima constantemente em renascer”4, analisa, com brilho, Miguel Chaia, para catálogo da galeria Denis Perri, em 1988. E é reconfortante perceber que, 23 anos depois, tal olhar ainda é válido.

Mario Gioia

Dudu Santos exibe pinturas, desenhos e objetos na Galeria Jaqueline Martins

Mostra “Forever”, que será inaugurada em 10 de setembro, permanece em cartaz até 11 de outubro

Comemorando 50 anos de sua primeira exposição individual, em 1961 no Clube dos Artistas e Amigos da Arte, em SP, o pintor Dudu Santos inaugura no sábado, 10 de setembro, a mostra “Forever”, na Galeria Jaqueline Martins, sua representante desde o começo de 2011. Artista reconhecido pela densidade e expressividade de sua obra, Dudu volta a realizar uma individual em São Paulo após 6 anos. A entrada é franca.

A exposição - “Forever” reúne pinturas expressionistas (acrílicas sobre tela), 20 desenhos das séries Dark, Estudos e Poeta, além de 4 objetos criados pelo artista, cuja paleta de cores traz, em geral nessa mostra, um aspecto mais denso e crítico.

“Para a individual na Galeria Jaqueline Martins, Dudu Santos tem no gesto um forte procedimento de sua poética, mas a paleta parece mais escura, não solar. Aquele prazer do fazer artístico, tão em voga nos anos 80, persiste, mas parece ser resultante de um olhar mais crítico. Nesse sentido, as esculturas negras exibidas na mostra formam um conjunto também pouco otimista. Talvez seja o lado mais expressionista do artista impondo-se”, avalia o crítico Mario Gioia em texto assinado para o catálogo da exposição.

Efeméride – Durante essas 5 décadas dedicadas à arte, Dudu Santos atuou também como marchand, em um período de 10 anos compreendido entre 1976 e 1985. Sua produção artística nesse intervalo foi menos constante, tendo sido retomada após sua saída da Grifo Galeria de Arte de São Paulo, que tornou-se um dos espaços fundamentais para a arte contemporânea no cenário nacional da época e que é um marco lembrado ainda hoje como fator constituinte do mercado de artes atual.

Sobre o trabalho de Dudu Santos assim se expressaram importantes personalidades do meio artístico brasileiro:

“Nesta fase de revolução e libertação, a obra de Dudu Santos adquire instantes de sortilégio. Magia. Na ruptura com o conformismo das regras cristalizadoras, ele exige o movimento na sua instigante sucessão de imagens que se desencadeiam como num sonho. Ou delírio, mas num delírio que é tumulto e ao mesmo tempo, ordem, a ordem que nasce da energia criadora. Nessa energia de lucidez em meio da paixão, os impulsos de luxúria, desafio e também fragilidade na repentina cegueira da dançarina que passa a ser conduzida pelo criador na sua busca sem tempo para os pinceis, Dudu Santos toma das cores e as submete com suas próprias mãos.”

LYGIA FANGUNDES TELLES

“Durante todos esses anos, Dudu Santos tem perseguido essa verdade advento, fazendo de sua história particular a história da arte brasileira, uma história que, em geral, se nutre da história da arte internacional. Sua arte é a projeção de sua história particular, dos adventos e eventos artísticos de que participou. E não foram poucos, nesses últimos trinta anos de percurso. E como a origem da obra de arte está na origem do Ser, foram muitas as mudanças, as metamorfoses, as transubstanciações do Ser e da Obra.”

ALBERTO BEUTTENMüLLER

“Não se faz sucesso impunemente. A brilhante atuação da Galeria Grifo em São Paulo (e que não é apenas de mercado, mas também de contribuição real á cultura) transformou a imagem de Dudu Santos na do marchand por excelência. Inteligente, sensível e informado, ele se tornou o mediador ideal e confiável nesses delicados terrenos em que a beleza convive com o dinheiro.”

OLIVIO TAVARES DE ARAÚJO

Dudu Santos - Iniciou os estudos de arte em 1953, com a artista húngara Kizly Piroszka. Seu talento foi moldado ainda através de estudos com nomes das Artes como Eduardo Sued, Nelson Nóbrega, Yolanda Mohaly, Marcelo Grassmann, Renina Katz e Mario Gruber.

Sua primeira mostra individual aconteceu em 1961 e suas obras estão no acervo de grandes museus e pinacotecas como o MAC - Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, MAB - Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado, MOA, Museum de Art - Japão. Dudu Santos fez mais vinte exposições individuais no Brasil e no exterior, participou de diversas bienais nacionais e internacionais. O artista plástico ostenta um currículo vasto e respeitável é hoje um dos principais nomes em atividade do seleto mundo das artes do Brasil.

Galeria Jaqueline Martins - Com foco na arte contemporânea e na constante pesquisa em (re) descobrir artistas que têm uma importância cultural fundamental para a cena atual da arte contemporânea, a Galeria Jaqueline Martins representa artistas como Alex Vallauri, Genilson Soares, Alzira Fragoso, Adrianna Eu, Azeite de Leos, Daniel Nogueira, Dudu Santos, Nara Amélia e Ronaldo Aguiar.

Serviço:

Exposição Forever, de Dudu Santos

Local: Galeria Jaqueline Martins

Endereço: Rua Virgilio de Carvalho Pinto, 74 – Pinheiros – São Paulo, SP

Telefone: (11) 2628 1943

Abertura para convidados: 10 de setembro, sábado a partir das 11h

Data: de 12 de setembro a 11 de outubro

Horários: de segunda a sexta das 11h30 às 19h; sábado das 11h às 17h

Entrada franca

Informações para a imprensa:

Vicente Negrão Assessoria (11) 3060.8397/ (11) 3064.2563

Vicente Negrão (11) 9203.0475 – vicente@vicentenegrao.com

Filipe Bezerra – (11) 8102.8116 – filipe@vicentenegrao.com