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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Marc Chagall no Masp


Marc Chagall e Igor Stravinsky, além de serem conterrâneos e contemporâneos também tiveram que sair de suas terras para poderem exercer e aprimorar sua arte, pois o centralismo soviético engessava seu crescimento.
A música que acompanha este comentário é da suite "Pássaro de Fogo", que foi coreografada por George Balanchine em 1949 para o The New York City Ballet, com cenários e trajes desenhados por Marc Chagall, ficando como repertório da companhia até 1965.




Danse infernale de tous les sujets de Kastcheï - Igor Stravinsky


O Masp conseguiu mais uma bela exposição, trouxe a São Paulo a mostra "O mundo mágico de Marc Chagall - Gravuras", que só seria apresentada em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.
Pena que esta é uma versão reduzida daquelas mostras, pois só vieram as gravuras, sendo que as pinturas, esculturas, desenhos e guaches tiveram que retornar a seus acervos originais, pois já estavam fora há bastante tempo; mas mesmo assim isto não tira o brilho deste evento, pois temos uma belissíma oportunidade de conhecermos um pouco mais da obra deste artista, com três séries de gravuras, "As fábulas de La Fontaine", "A Bíblia" e "Dafne e Cloé", inéditas no Brasil, complementada com gravuras da coleção da Fundação José e Paulina Nemirowsky.
É claro que temos a expectativa de nos aprofundarmos em suas obras, principalmente os quadros, porém suas gravuras também nos encantam, trazendo-nos toda a dramaticidade dos eventos retratados, bem como a explosão de cores na série "Dafne e Cloé".
Abaixo das imagens, clipe publicado no portal "Estadao".









Mostra traz 178 gravuras de séries completas como A Bíblia e ilustrações das fábulas de La Fontaine


Quando o artista russo Marc Chagall (1887-1985), considerado o maior pintor judeu do século 20, aceitou a encomenda do marchand francês Ambroise Vollard (1866-1939) para ilustrar a Bíblia na década de 1930, ainda não dominava totalmente a técnica da gravura. Seus detratores, entre eles o pintor Georges Rouault (1871-1958), aproveitaram para destilar o veneno acumulado nas rodinhas parisienses dos modernistas. Rouault, na época, comentou que Chagall teria razões de sobra para chorar diante do Muro das Lamentações. Não foi, obviamente, o que aconteceu. A série bíblica de Chagall, que Vollard não viu pronta (o marchand morreu antes), é, hoje, um dos pontos altos da carreira do artista, homenageado pelo Masp com uma exposição de 178 gravuras, O Mundo Mágico de Marc Chagall, que reúne, além dela, suas ilustrações para as fábulas de La Fontaine e uma série de litogravuras baseada no idílio pastoral de Dafne e Cloé.

Em linha direta, as três séries acompanham toda a evolução da linguagem artística de Chagall desde que o pintor desembarcou na França, em 1923, antes de passar pela Alemanha um ano antes e ter aulas com o artista alemão de origem judaica Hermann Struck (1876- 1944). Foi por influência de Struck, sionista que vislumbrou a criação de um Estado judeu, que Chagall visitou a Palestina em abril de 1931, em busca de inspiração para criar a série A Bíblia, encomendada por Vollard e exibida em versão integral na mostra do Masp. O artista trabalhou nela de 1931 a 1939, ano da morte de Vollard, retomando-a depois da guerra, quando já morava nos EUA. Aquareladas à mão por Chagall, essas 105 gravuras foram publicadas em 1956 por Teriade, nome artístico do crítico de arte e editor grego Stratis Eleftheriades (1889-1983).

Curador da mostra, o crítico e museólogo Fábio Magalhães destaca a série bíblica por representar uma mudança notável na linguagem artística de Chagall. "Ele havia passado por Amsterdã para estudar Rembrandt, que, como se sabe, foi um mestre na ilustração de cenas bíblicas, e aproveitou para ver as pinturas de El Greco em Toledo, que inspiraram o alongamento das figuras da série bíblica, marcada por uma verticalidade espiritual". Mais ambiciosa que sua série de águas-fortes aquareladas para as fábulas de La Fontaine, igualmente executada (nos anos 1920) a pedido de Vollard, a série bíblica representou um duplo desafio para Chagall. Primeiro, obrigou o artista a confrontar sua herança cultural e ignorar o segundo mandamento, ao criar imagens correspondentes às palavras do livro sagrado, o que é interdito pela lei mosaica. Em segundo lugar, para não tomar como referência seus contemporâneos franceses - especialmente Matisse e Rouault, este último especialista em cenas bíblicas -, Chagall foi buscar em suas raízes russas um dos elementos formadores de sua poética. São notáveis as referências aos pintores russos de ícones na série.

Já a série de ilustrações das fábulas de La Fontaine despertam menos interesse. Justificável. São quase exercícios de um neófito, ainda experimentando timidamente a incorporação das cores em águas-fortes. Produzidas entre 1926 e 1927 para Vollard, que já lhe encomendara as ilustrações para o livro Almas Mortas, de Gógol, as 23 (das 100) gravuras das fábulas provocam impacto inferior, por exemplo, ao da litografia O Cocho (1924), mais próxima de uma realidade vivida por Chagall, a de tipos feudais da antiga Rússia czarista que conheceu na infância. O Cocho e o Autorrretrato com Chapéu Enfeitado (1928) são duas das gravuras expostas no Masp que não integram suas três séries mais famosas. Elas pertencem ao acervo da Fundação José e Paulina Nemirowsky. São magníficos exemplos (em preto e branco) do universo de um artista conhecido por sua maestria cromática. Picasso, econômico em elogios, dizia dele que era o único capaz de tomar o lugar de Matisse no uso da cor.

Chagall prova isso na série dedicada ao mito grego de Dafne e Cloé. A partir dela, o artista abandona a gravura em metal e adota a litografia. Foram duas viagens à terra dos pastores apaixonados com o objetivo de conhecer melhor a cultura rural da Grécia, a primeira delas em 1952. Dois anos depois dos primeiros guaches, os gregos receberiam novamente sua visita, dessa vez para aprofundar o estudo da luz mediterrânea. Para conseguir as transparências e as variações cromáticas da série, finalmente editada por Teriade em 1961, foi necessário usar uma pedra para cada tonalidade de cor. Uma única gravura exigiu 25 pedras matrizes, ou seja, 25 impressões.

A série de Dafne e Cloé não teria sido realizada sem a intervenção do impressor Charles Sorlier (1921-1990). Chagall e ele trabalharam arduamente no estúdio parisiense de Fernand Mourlot, nos anos 1950, para resgatar o cromatismo das primeiras pinturas do artista, ainda consideradas seus melhores trabalhos, inclusive pelo curador da mostra, Fábio Magalhães. "Não teremos essas pinturas de juventude no Masp como tivemos na abertura mostra na Casa Fiat de Cultura em Minas, pois o empréstimo das telas, de museus estrangeiros como a Galeria Tretyakov de Moscou, era por tempo limitado". A exposição mineira, aberta de outubro a dezembro, apresentava quase o dobro de trabalhos. Eram 300 obras, entre pinturas, guaches, esculturas e gravuras como as da série Almas Mortas, na maior mostra de Chagall realizada no Brasil.

Em contrapartida, o Masp tem a primeira edição do livro autobiográfico Ma Vie (Minha Vida, 1931) com gravuras originais de Chagall, em que conta sua vida na Rússia e sua experiência como comissário de Belas Artes do primeiro governo socialista após a revolução de 1917, até comprar uma briga com o suprematista Malevitch e se demitir do cargo, decidindo, então, tentar a sorte em Paris. O livro, segundo Magalhães, é um marco na carreira de gravador de Chagall, que nasceu numa comunidade pobre de judeus hassídicos de Vitebsk, na Bielo-Rússia.

O Mundo Mágico de Marc Chagall - Gravuras. Masp. Av. Paulista, 1.578, tel. 3251-5644. 11 h/18 h (5.ª, 11 h/20 h; fecha 2.ª). R$ 15 (3.ª grátis). Até 28/3. Na 2.ª (25), o museu estará aberto para visitação com entrada franca - fechará na 3.ª.

Um comentário:

  1. rodolfo chiaverini neto20 de fevereiro de 2010 23:29

    estou de olho nesta exposição...
    não sei se já te falei mas o chagall é meu ídolo
    muito bons seus comentários
    tambem não sei se você já ao museu de arte sacra do chagall em Nice ;vale mas vale muito
    tenho uma fita inteira que fiz quando a vanessa e eu estivemos por lá.

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